A pressão sobre o alimento combina com a expansão
da demanda interna, garante especialista
O aumento de 9,21% no preço da dúzia de ovos na capital paulista entre janeiro e fevereiro de 2026 reflete pressões simultâneas sobre oferta e demanda, dentro de um cenário de alimentos básicos com alta mais ampla, evidenciada pelo avanço de 4,55% no grupo no IPCA de fevereiro. A pressão sobre os ovos combina a expansão da demanda interna, impulsionada pelo chamado “boom das proteínas”, que levou o consumo por brasileiro a 287 unidades em 2025, alta de 6,7% sobre 2024 e de 33,4% desde 2015, segundo estimativas da ABPA, com a redução da oferta decorrente do aumento das exportações brasileiras, que restringe o volume disponível para o mercado doméstico.
Sim, os preços dos ovos registraram aumentos significativos no início de 2026 no Brasil, com relatos de altas expressivas, superando 40% em algumas regiões, especialmente durante o período da Quaresma. Fevereiro de 2026 foi o mês como maior volume de embarques da proteína em 13 anos, com 2,94 mil toneladas. A marca também é 16% superior ao registrado em fevereiro do ano passado. No mercado doméstico, a demanda aquecida e a oferta limitada favoreceram cotações.
Do lado do mercado doméstico, no atacado e varejo, a demanda aquecida e a oferta limitada fizeram as cotações subirem e favoreceram o poder de compra do avicultor frente aos insumos essenciais para atividade do setor.
Exportações
O movimento de alta nas vendas de ovos para o exterior já tinha sido registrado em janeiro, mas o país não superava essa marca desde 2013, demonstram os dados compilados da série histórica da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) e analisados pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) do campus da Universidade de São Paulo (USP) em Piracicaba (SP).
Especialista alerta
Custos de produção elevados, especialmente ração e energia, sustentam a tendência de alta, tornando difícil uma acomodação rápida dos preços e mantendo a trajetória iniciada no final de 2025. No acumulado do primeiro bimestre, o preço médio passou de R$ 10,04 em dezembro de 2025 para R$ 10,44 em fevereiro de 2026, variação de 3,98%, indicando continuidade de ajuste em ritmo consistente com os fatores estruturais que atuam sobre o mercado.
Do ponto de vista inflacionário, a evolução do preço do ovo impacta diretamente famílias de menor renda, dada a relevância do item na cesta básica, afetando percepção de perda de poder de compra e pressionando a inflação de alimentos essenciais. Mesmo que o peso do item no índice geral seja limitado, o efeito sobre o orçamento doméstico é significativo, e movimentos desse tipo sinalizam pressões persistentes de custos e demanda que atingem de forma concreta o cotidiano das famílias e a dinâmica inflacionária em curso.
Gesner Oliveira, economista e professor da FGV e sócio da GO Associados: