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Músico e compositor retornam à Goiás com

duas apresentações, dias 30 e 31 de outubro.

 

Recebi dias desses a ligação do meu amigo músico e compositor João Caetano, e fiquei muito feliz pela sua lembrança, convidando-me para o lançamento do seu novo álbum, “Mil voltas”, previsto para os dias 30 e 31 de outubro, em dois shows, no Teatro Goiânia. Do lado de lá ouvi aquela mesma voz mansa, carinhosa e atenta aos detalhes. Falou do seu novo trabalho, que foi gravado entre 2023 e 2025, nos estúdios Meier e Lontra. A mixagem é do Studio Up Music e a produção musical de Luís Claudio Ramos, João Castilho, Claudio Jorge e João Caetano. A Curadoria contou com a participação de Luiz Alberto Daher; o design é de Leo Eyer e os textos são de Leo Aversa e Miguel Pinto Guimarães.

 

Ficha técnica revelada, João Caetano relembra como um menino as nossas andanças pela música popular brasileira através dos festivais da época, em 1969, 1970 e 1971 e do nosso parceiro em comum, o Tavinho Daher, com quem ele dividiu 50 anos de parceria e que fez comigo “Uma vez, uma rua”, classificada como o Melhor Arranjo, na edição do II Festival Universitário da Música Popular Brasileira, em 1970, promoção do DCE da UFG. Ele até lembrou de um trecho da composição: “Pedras que escondem o choro do céu”... O saudoso Marquinhos do Violino encantou o júri naquela noite com a sua brilhante apresentação.

 

Organizado pelo Pratinha (José Henrique Prata) e pelo Chicão (Francisco José Coutinho Paes), o II Festival trouxe um jurado de primeira linha: Paulinho da Viola, Maestro Gaya, Mariozinho Rocha, Milton Miranda, Hermínio Belo de Carvalho, e os representantes goianos, William Guimarães, Iris Mendes e Iêda Schmaltz. Em plena ditadura militar, Goiânia respirava ainda amedrontada e os compositores tinham que se virar para não protestar. Todas as composições tinham de passar pelo crivo da Censura Federal. 

 

A composição de Cícero Cavalcante e Joana Caldas, “Amorphos”, venceu a competição eleita por um jurado composto pela elite musical do país. Tenho o troféu até hoje guardado, uma singela escultura de metal e madeira com a logo do Festival, criada pelo arquiteto Cirineu de Almeida.  A música “Estela”, de Renato Castelo e Antônio Siqueira Júnior ficou em segundo lugar e “Chorinho de Repente”, de Antenor Neto Monturill e Henrique César Lana, em terceiro. Já a 4ª colocada, “O último a embarcar apague a luz do aeroporto”, foi classificada como a melhor letra do festival, música de João Caetano e Maurício Campos Palmerston.

 

E para fechar essa prosa, espero poder abraçar meu amigo no lançamento deste álbum, acho que estou dentro de uma das mil voltas que o cantador já deu. Parabéns meu irmão, muito sucesso. Estaremos lá. (Paulo Menegazzo) 

 

 

MIL VOLTAS

João Caetano segundo Leo Aversa

 

“Quantas voltas a vida dá? Algumas são pequenas, cabem dentro de uma lembrança: uma carta de mãe, a estrada de terra, o olhar daquela moça, a quadrilha junina que só terminava de rodar com o nascer do sol. Outras são imensas: atravessam cidades, mudam destinos, trocam ofícios, reinventam caminhos. João Caetano conhece bem esse movimento, mas em todas suas curvas havia música, a linha invisível que segurava a roda e a fazia girar de novo.

 

Mil Voltas, seu novo álbum, nasce desse giro constante. É memória e é viagem. É sertão, é carrossel. É carta guardada em gaveta e é samba que insiste em amanhecer. Suas músicas são como fotografias em movimento: cada uma registra uma curva do caminho, o instante em que a vida rodou para outro lado. João fala do menino de Kichute verde, correndo atrás do sorveteiro, o joelho ralado que não impede o riso. Canta a amarelinha riscada com giz, o salto em um pé só que levava direto ao céu. Canta a Casa da Ponte, Coralina na janela, mexendo o doce na gamela, enquanto os becos de Goiás cochicham poemas.

 

João canta o Brasil profundo, onde a aparente simplicidade esconde a alma de um país.

 

Suas voltas começaram cedo. Ainda pequeno, a música era rotina: serestas, violões, amigos que se transformavam em coro. Descobriu em Goiás os cânticos das igrejas e a disciplina do coral do Colégio Santana. Vieram as primeiras aulas de violão, as modinhas, a MPB que entrava pela janela: Chico, Caetano, Gil, Milton, Vandré. Na adolescência, a roda girou mais uma vez: com Nael e Terezinha, primos que respiravam arte, e no Colégio Ateneu Dom Bosco, onde conheceu Tavinho Daher, parceiro de toda a vida. Vieram os festivais dos anos setenta, as vitórias, a aparição no Fantástico cantando “Roda Gigante”.

 

O menino que ganhava festivais virou médico, mas a roda da música não parou. Algumas canções suas ganharam o país em trilhas de novelas, outras se espalharam em discos, parcerias e shows, acompanhadas de grandes músicos e arranjadores. João deu muitas voltas, mas sempre voltava ao mesmo ponto: a música.

 

É o que se ouve em Mil Voltas: o cheiro de cravo e a tradição junina, a saudade escrita à mão, lembrança de mãe que não se apaga. A vertigem dos sonhos, o céu de Van Gogh e a luz de Renoir. O menino que inventava foguetes e acreditava que podia enganar o tempo. A dança que começa num olhar e amanhece em um desfile de felizes sorrisos. E, claro, a faixa-título, que viaja de Paris a Pirapora, da Capadócia ao Japão, girando sem nunca deixar de procurar a paz que ninguém sabe explicar.

O nome não é por acaso: Mil Voltas é o resumo de alguém que já foi muitas coisas, mas nunca deixou de ser artista. Cada profissão, cada curva, cada mudança de rumo está guardada nas suas canções. É um álbum que mostra que sempre existe um ponto de retorno — aquele instante em que a música dá sentido à vida.

 

No fim, o que fica é a lembrança de que vivemos assim, pequenos e gigantes, de festa em festa, de carta em carta, de samba em samba, de recomeço em recomeço. Sempre rodando, sempre girando para longe, sempre voltando o nosso lugar.

 

Até chegar, sem perceber que o tempo dá no pé, a mil voltas”.

 

O TAL

(João Caetano / David Izacc)

 

Eu já morei lá na lua, coração e alma nua

Era cabeça de vento assoprando o pensamento

Eu era moleque à toa, que faz um foguete e voa

Do espaço sideral, o tal

 

O galope era meu passo, fui caubói e bom de braço

Eu laçava o mundo inteiro num abraço boiadeiro

Eu nunca gostei de brigas, só amigos e amigas

Muito além do meu quintal, o tal

 

O tempo que passa é rio, que passa um arrepio

Água que já foi não volta jamais

Eu, menino, dava olé, vi o tempo dar no pé

Que vontade de correr pra trás

 

Desbravei uns mil lugares, desvendei os sete mares

Descobri o novo mundo num mergulho mais profundo

Capitão, o destemido, nunca me dei por vencido

Derrotei o bicho mau, o tal

 

Era menino com asas, o sonhar a minha casa

Os dois pés firmes no chão numa nuvem de algodão

Fui pequeno, fui gigante, fui um cavaleiro andante

O cantante sem igual, o tal

 

O tempo que passa é rio, que passa um arrepio

Água que já foi não volta jamais

Eu, menino, dava olé, vi o tempo dar no pé

Que vontade de correr pra trás

 

 


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